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O que é o Sertão Metafísico?

  • Philo
  • 11 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

O Sertão é o mundo

Autor: @studyphilo8



Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo" (Guimarães Rosa em “O Espelho”)


O primeiro mergulho


As nossas lembranças mais importantes permanecem vívidas e cristalinas durante muito tempo.


Lembro bem dos detalhes daquela tarde em meados de maio: fazia frio em Goiânia, a sala de aula na faculdade de Letras estava parcialmente vazia e os poucos alunos não pareciam interessados no que estava sendo ministrado; alguns fitavam o caderno fingindo ler algo, outros repousavam os olhos atentos na tela do celular.


O professor levantou em um pulo e começou a distribuir um punhado de folhas para os alunos. Eu, no fundo da sala, fui o último a receber. Seria alguma entrega de notas? Curioso, li o título no topo da página: A terceira margem do rio, Guimarães Rosa.


Instigado pelo misterioso título, sem rigor ou atenção passei os olhos pelas primeiras linhas do conto:

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.”

“Sido assim”? “Mocinho e menino” não seria redundante? “me alembro”? Que uso estranho das vírgulas. O texto me causou grande estranhamento. Tempos depois eu descobri que esse era um efeito colateral comum em quem começa a ler Guimarães Rosa.


Do auge da minha arrogância de universitário metido a escritor, estranhei a prosa e julguei Guimarães de uma forma que até hoje me arrependo desses pensamentos.


Então o professor começou a ler em voz alta. Aos poucos, com o andar da narrativa, meu interesse foi aumentando, até que, lá pra metade da estória, já estava completamente encantado.


Mérito também ao professor e sua leitura em voz alta. Guimarães impõe muita oralidade em seus textos e uma leitura em voz alta só potencializa o efeito de sua magia.


O professor era versado em Rosa, já habitara aquele Sertão, conhecia as veredas das palavras, as estradas dos neologismos, as margens das metáforas. Assim como um rio, fazia fluir a narrativa de Guimarães.


Chegamos ao clímax do conto e fui arrebatado com aquele final. Julio Cortázar dizia que um “conto deve ganhar por nocaute”. E foi assim que me senti, nocauteado, desnorteado, sem saber se tinha entendido tudo perfeitamente.


Ao chegar em casa, com aquilo tudo na cabeça, resolvi ler novamente aquelas quatro páginas. Sentia que tinha um enigma em mãos e me encantava sempre que mergulhava naquele rio.


Foi nesse dia que resolvi ler tudo de Guimarães, estudá-lo. Tive a certeza de que se tratava de um dos maiores escritores da história da Literatura.




Por que Sertão Metafísico?


Ainda naquele ano resolvi dedicar meu trabalho de conclusão de curso a Guimarães. Decidi analisar os contos sob uma perspectiva do mito, identificando como há uma linguagem mítica em toda sua obra, principalmente em A terceira margem do rio.


O conceito de “Sertão Metafísico” em Guimarães Rosa reúne as dimensões místicas, míticas, filosóficas e simbólicas de sua obra. O autor transforma o espaço e os personagens em reflexões profundas sobre o ser, o tempo, a linguagem, o mal e a transcendência humana. E também sobre o início de todas as coisas. Sobre a magia que reside no simples e ordinário, quando ninguém está vendo.


“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”


Mesmo repleto de brasilidade e cultura popular, o Sertão de Rosa é ponto de confluência de mitologias, religiosidades, esoterismos e experimentações formais. Uma síntese entre o particular e o universal. Rosa confessa:

“Estudo muito as doutrinas. A sabedoria oriental me fascina. Não foi à toa aquelas epígrafes de Plotino ou de Ruysbroek, o Admirável, para o meu Corpo de Baile. São um complemento de minha obra. Quero ficar com o Tao, com os Vedas e os Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff. Com Cristo, principalmente.” (Carta a Edoardo Bizzarri, 1963)

Guimarães trabalhou como médico no Sertão mineiro, convivendo com vaqueiros, jagunços, boiadeiros e camponeses; ouvindo suas histórias, expressões e modos de vida. Anotava tudo: hábitos, crenças, superstições, manias, formas de agir e se expressar. Rosa cavalgou pelas estradas do Sertão, sempre com um olhar atento. Vivenciou verdadeiramente aquele ambiente e o guardou dentro de si.


Por isso, a expressão literária de seu Sertão é, ao mesmo tempo, tanto um retrato de um Brasil real e profundo, como um Sertão bem particular, imagem de uma alma densa e uma imaginação rica. Ressignificado.


“As pessoas dizem que eu estou fazendo uma cena do interior de Minas, mas eu estou fazendo um omelete ecumênico”


Rosa transforma o regional em universal através de uma alquimia da palavra, criando uma linguagem poética que nomeia, inventa e recria o mundo, elevando o Sertão à condição de cosmo sagrado onde se entrelaçam sabedoria antiga, filosofia, transcendência e experiência humana. Essa renovação da linguagem é fundamental em sua obra. Para ele, “somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo”.



A riqueza da escritura rosiana reside na capacidade de fundir tradição oral e invenção estilística, tornando o português num instrumento de criação de mundos, de exploração de ritmos e sentidos ocultos. Por isso sua escrita é cheia de neologismos, torções sintáticas, etimologias reinventadas e jogos sonoros: Rosa quer regressar à origem do verbo, àquele instante em que o homem nomeou o mundo pela primeira vez.


Sua representação do Sertão é a consumação deste mundo renovado e transformado. Seus neologismos, que integram latim, italiano e outras línguas à fala sertaneja, são como que um novo idioma. O espaço em que seus personagens existem é uma espécie de laboratório para analisar a alma. Longe da urbanização, distante da cidade, o sertão roseano revela-se como um cosmos à parte. Como diz José Miguel Wisnik, “é um mundo indefinido, onde não há muita povoação, para criar um mundo mítico”.


A literatura de Guimarães é feita de muitas tensões, polos contrapostos: nascimento e morte, início e fim, presença e ausência; mas sempre há a busca pelo meio, uma alternativa de síntese entre os opostos. Essa é a terceira margem do rio.


Portanto, é levando todas essas questões em consideração que o termo “metafísico” foi usado muitas vezes pela crítica literária. Não deve ser entendido de maneira estritamente filosófica. Poderia ser “Sertão místico” ou “Sertão transcendental”, termos que também já foram usados. Não refere-se à religião, mas ao mistério de existir: o “entremeio”, o “entrelugar”, a travessia e o rio; categorias de passagem.



Abrir os olhos, enxergar e deslumbrar-se


O ideal seria demonstrar textualmente onde todas essas características estão presentes na obra de Guimarães. Pretendo fazer isso de maneira mais aprofundada em textos futuros.


Pode-se afirmar que em muitas das novelas e contos há uma ideia implícita, muitas vezes Guimarães está apresentando seu projeto literário de maneira metafórica.


Em Sagarana, primeira obra publicada por Rosa, o Sertão já se revela como espaço onde natureza, animais e humanos compartilham uma cosmovisão integrada, permeada pelo mágico e pelo mítico. Contos como O Burrinho Pedrês, Conversa de Bois e São Marcos estabelecem o paradigma de um universo animado onde bichos possuem subjetividade, agência e perspectiva próprias.


Em Primeiras Estórias, Rosa privilegia personagens infantis, loucos e animais como portadores de uma percepção não contaminada pela racionalidade instrumental. Crianças como o Menino (em As Margens da Alegria) e Nhinhinha (em A Menina de Lá) habitam um universo maravilhoso onde palavra, desejo e realidade se confundem


Aliás, a crítica a uma racionalidade instrumental é um tema comum de suas obras. O escritor tinha uma profunda aversão a um certo racionalismo cartesiano, que chamava de “megera cartesiana”. Ou seja, uma visão de mundo utilitária, que reduz todas as coisas a objetos mensuráveis. Defendia que era preciso libertar-se dessa percepção condicionada e recuperar a capacidade de espanto, mistério, encantamento diante do real. Esse era o projeto de Guimarães Rosa.



Acredito que este projeto esteja melhor representado em Miguilim, o personagem de Campo Geral, um menino míope cuja descoberta do olhar simboliza a iniciação ao mundo e à linguagem poética. A miopia física de Miguilim funciona como metáfora da limitação perceptiva que só a poesia e a sensibilidade podem superar.


É isso que a literatura de Rosa tem a nos ensinar: olhar o mundo com outros olhos, espantar-se com a beleza da vida, entender que há algo muito além da materialidade das coisas, viver o mistério que muitas vezes nos cerca. Afinal, repetindo mais uma vez o trecho de O Espelho: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”.

 
 
 

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